Os quatro tipos de lente, lado a lado
Do mais simples ao mais completo: a lente monofocal (que costumamos chamar de “esférica”), a monofocal plus (“esférica plus”), a lente de foco estendido (EDOF) e a lente trifocal / de alcance contínuo. Quanto mais distâncias a lente cobre sem óculos, maior tende a ser a chance de halos à noite e mais saudável o olho precisa ser.
Ótima para longe. Computador e leitura com óculos.
Longe como a monofocal, com ganho no intermediário. Leitura e celular com óculos.
Longe e intermediário contínuos, perto parcial. Letra pequena costuma pedir óculos.
Longe, intermediário e perto. Maior independência dos óculos, com mais halos à noite.
Quanto mais escura a barra, mais nítida tende a ser a visão sem óculos naquela distância. Representação esquemática, para comparação entre os tipos de lente — o resultado de cada pessoa depende do olho, da adaptação e da biometria.
Deslize a tabela para o lado para ver as quatro lentes →
| Monofocal | Monofocal Plus | Foco estendido (EDOF) | Trifocal / alcance contínuo | |
|---|---|---|---|---|
| Exemplos | TECNIS Monofocal e similares de outras marcas | TECNIS Eyhance | TECNIS PureSee · Alcon Vivity · Zeiss AT LARA | TECNIS Odyssey · Alcon PanOptix · Zeiss AT LISA tri |
| Como funciona | Um único foco, em geral para longe | O grau aumenta da borda para o centro da lente | Alonga o foco de forma contínua — sem dividir a luz (PureSee, Vivity) ou com desenho difrativo (AT LARA) | Difrativa: distribui a luz entre longe, intermediário e perto |
| Longe | Excelente | Excelente | Muito boa | Muito boa |
| Intermediário (computador) | Limitada | Boa | Muito boa | Muito boa |
| Perto (leitura, celular) | Precisa de óculos | Precisa de óculos | Parcial: celular e preços; letra pequena pede óculos | Boa, inclusive leitura |
| Halos e brilhos à noite | Pouco comuns | Pouco comuns, semelhantes à monofocal | Baixos nas que não dividem a luz (PureSee: ~5% relataram halos no estudo da FDA) | Mais frequentes; exigem cautela ao dirigir à noite |
| Contraste | Preservado | Preservado | Próximo ao da monofocal; pode cair em algumas condições | Reduzido em relação à monofocal |
| Dependência de óculos* | Alta — perto e intermediário | Alta — perto | Média — leitura de letras pequenas | Baixa — alguns ainda precisam |
| Versão para astigmatismo | Sim (tórica) | Sim — Eyhance Tórica II | Sim — PureSee, Vivity e AT LARA têm versão tórica | Sim — Odyssey, PanOptix e AT LISA tri têm versão tórica |
| Exige olho saudável? | Não — indicada mesmo com outras doenças oculares | Não — boa opção com outras doenças oculares | Sim | Sim — critério mais rigoroso |
* Classificação de dependência de óculos (alta, média, baixa) usada pela Johnson & Johnson no seu simulador de visão, para as lentes TECNIS. Valores de halos do estudo de aprovação da PureSee na FDA (2026). Lentes de marcas diferentes na mesma categoria não são idênticas.
Cada lente em detalhe
01 · Monofocal (“esférica”)
Um único foco, com a melhor qualidade de imagem
Lente padrão — ex.: TECNIS Monofocal
A lente monofocal tem um único ponto de foco, normalmente ajustado para longe. É a lente com o maior histórico de uso e a melhor nitidez e contraste. Algumas lentes básicas têm óptica esférica; outras, como a TECNIS Monofocal, são asféricas: corrigem a aberração esférica do olho, o que melhora a nitidez e o contraste.
- Melhor contraste e qualidade de imagem entre todos os tipos.
- Halos e brilhos à noite pouco comuns.
- Pode ser usada em praticamente qualquer olho, inclusive com glaucoma ou doenças da retina.
- Em geral, é a lente coberta pelos convênios.
- Óculos para perto (leitura, celular) e, quase sempre, para o computador.
- Não compensa a presbiopia, a não ser na estratégia de monovisão (veja abaixo).
02 · Monofocal Plus (“esférica plus”)
TECNIS Eyhance
Johnson & Johnson · para astigmatismo: Eyhance Tórica II
A Eyhance — que a própria J&J chama de “monofocal plus” — continua sendo uma lente monofocal, mas com um aumento contínuo do grau da borda para o centro da lente. Esse desenho estende levemente a profundidade de foco: a visão de longe é equivalente à de uma monofocal, com ganho na distância intermediária — painel do carro, tela do computador, rosto de quem está à mesa.
- Visão de longe com a qualidade de uma monofocal.
- Melhor visão intermediária que a monofocal padrão.
- Halos e brilhos pouco comuns, semelhantes aos da monofocal, segundo os estudos citados pelo fabricante.
- Boa opção para quem tem glaucoma, doenças da retina ou da córnea e não é candidato a lentes de foco estendido ou difrativas.
- Não é uma lente para leitura: óculos para perto e para o celular continuam necessários.
- O ganho intermediário é moderado e varia de pessoa para pessoa.
- Custo adicional em relação à monofocal padrão.
- Até uma linha a mais de visão na faixa intermediária (cerca de 66 cm), em comparação com a monofocal TECNIS padrão.
- Mais de 10 milhões de lentes implantadas no mundo.
Fonte: Johnson & Johnson (dados do fabricante).
03 · Foco estendido (EDOF)
TECNIS PureSee
Johnson & Johnson · também em versão tórica
A PureSee é uma lente de foco estendido apresentada pela J&J como a primeira desse tipo puramente refrativa: em vez de dividir a luz em focos separados (como fazem as lentes difrativas), ela estende o foco de maneira contínua, do longe ao intermediário, com uma visão de perto parcial — suficiente, para muitos, para olhar o celular e ver preços.
- Visão contínua do longe ao intermediário, com ganho também para perto.
- Halos e brilhos em nível baixo, próximos aos da monofocal.
- Desempenho semelhante com pupilas de diferentes tamanhos, segundo a avaliação da FDA.
- Adaptação em geral mais simples que a das lentes difrativas.
- Leitura de letras pequenas, leitura prolongada ou ambientes com pouca luz frequentemente pedem óculos.
- Raios e brilhos ao redor de luzes são um pouco mais comuns que com a monofocal.
- A bula internacional alerta para possível redução do contraste em algumas condições e para cautela ao dirigir à noite ou com pouca visibilidade.
- Pequenos graus residuais pesam mais: exige biometria precisa e superfície ocular saudável.
- Custo adicional.
- 82% alcançaram boa visão intermediária (a 66 cm), contra 30% com a monofocal.
- Visão de longe equivalente à da monofocal.
- Cerca de 5% relataram halos (4,5% com a monofocal), sem casos graves.
- Para perto: 1 em cada 4 nunca precisou de óculos de leitura, e cerca de 4 em cada 10 ainda os usavam na maior parte do tempo.
Fonte: resumo de segurança e eficácia da FDA (2026), estudo randomizado com cerca de 110 pacientes por grupo, comparando a PureSee com a monofocal TECNIS, 6 meses após a cirurgia.
Foco estendido não difrativo, com a tecnologia X-WAVE, que alonga o foco sem dividir a luz. Segundo a Alcon, o perfil de halos é equivalente ao de uma monofocal. Linhas Clareon e AcrySof IQ, com versão tórica.
Foco estendido de desenho difrativo, com a tecnologia SMP, que segundo a Zeiss reduz a dispersão de luz. Pensada para quem aceita óculos de leitura. Por ser difrativa, os cuidados com halos e contraste pesam mais. Tem versão tórica.
Lentes da mesma categoria não são idênticas: desenho óptico, material e resultados variam entre os fabricantes, e cada uma tem bula própria.
04 · Trifocal / alcance contínuo
TECNIS Odyssey
Johnson & Johnson · também em versão tórica
A Odyssey é a lente da J&J para quem busca a maior independência dos óculos. Ela usa uma óptica difrativa de desenho “freeform” — anéis microscópicos na superfície da lente — que distribui a luz para longe, intermediário e perto. Está no mesmo grupo das lentes trifocais, mas o fabricante a descreve como de alcance contínuo e completo, sem “buracos” entre as distâncias.
- Boa visão em todas as distâncias, inclusive para ler.
- Maior chance de dispensar os óculos no dia a dia.
- Halos, raios e brilhos ao redor de luzes (faróis, postes) são mais comuns, principalmente nos primeiros meses.
- Contraste menor que o da monofocal, mais perceptível com pouca luz, chuva ou neblina.
- A bula orienta cautela ao dirigir à noite ou com pouca visibilidade.
- Raramente, os efeitos visuais são intensos a ponto de o paciente pedir a troca da lente.
- Astigmatismo que sobra acima de 1 grau reduz o benefício.
- Pode interferir em tratamentos com laser na retina e em algumas medições automáticas de grau.
- Exige olhos saudáveis e adaptação do cérebro (semanas a meses).
- 93% sem óculos em todas as distâncias um mês após a cirurgia (82 pacientes).
- 93% com halos, brilhos ou raios ausentes ou leves no primeiro mês (96 pacientes).
Fonte: Johnson & Johnson (dados do fabricante, estudos pequenos e sem grupo de comparação).
Trifocal difrativa com a tecnologia ENLIGHTEN, com o foco intermediário em 60 cm — a distância de um braço. Segundo a Alcon, a versão Pro, mais recente, tem metade da dispersão de luz da anterior. Tem versão tórica.
Trifocal difrativa com longa trajetória de uso, para visão de perto, intermediária e de longe. Tem versão tórica (AT LISA tri toric).
Os halos, a perda de contraste e a necessidade de olhos saudáveis descritos acima valem, em linhas gerais, para todas as lentes difrativas.
Experimente
Veja como seria sua visão com cada lente
Simulador da Alcon, em português, para comparar as lentes da marca. Ao abrir, ele mostra um aviso de termos de uso.
A Zeiss também tem simuladores de visão, mas o acesso é restrito a médicos cadastrados. Por isso, não há link aberto ao público.
Limitações e contraindicações
Esta é a parte mais importante da decisão. Uma lente tecnicamente mais sofisticada não é automaticamente melhor para todos — em alguns olhos, ela entrega menos qualidade de visão que uma monofocal.
O que nenhuma lente faz
- Não devolve a visão dos 20 anos. Toda lente é um compromisso entre distâncias, nitidez e efeitos visuais.
- Não corrige doenças de outras partes do olho. Se a retina, a mácula ou o nervo óptico estão comprometidos (por exemplo, por glaucoma ou degeneração macular), a lente não recupera essa perda.
- Pode sobrar um pequeno grau. O cálculo da lente (biometria) é muito preciso, mas não perfeito — especialmente em olhos muito longos, muito curtos ou com cirurgia refrativa prévia. O grau residual pode exigir óculos, laser ou, mais raramente, troca da lente.
- A “catarata secundária” pode aparecer. Meses ou anos depois, a membrana que sustenta a lente pode ficar opaca. Não é a lente que estraga: o tratamento é um laser rápido no consultório (capsulotomia com YAG laser).
- Lentes tóricas podem girar. Ocasionalmente, a lente para astigmatismo roda dentro do olho e precisa ser reposicionada.
- A cirurgia tem riscos próprios, qualquer que seja a lente: infecção (endoftalmite, rara), inchaço da retina (edema macular), descolamento de retina e aumento da pressão do olho, entre outros.
- Trocar a lente é possível, mas é outra cirurgia, com seus próprios riscos — por isso a escolha deve ser bem pensada antes.
O que a bula diz sobre PureSee e Odyssey
A bula dessas lentes não traz contraindicações absolutas. Ela lista situações em que a segurança e a eficácia não foram comprovadas e em que o cirurgião deve pesar riscos e benefícios. Na prática, nesses casos, as lentes de foco estendido e difrativas costumam não ser indicadas. As lentes de outras marcas da mesma categoria (como Vivity, AT LARA, PanOptix e AT LISA tri) têm bula própria, e a avaliação segue a mesma lógica:
- Doenças da mácula (como degeneração macular) e retinopatia diabética proliferativa grave.
- Glaucoma não controlado com medicação e atrofia grave do nervo óptico.
- Córnea com astigmatismo irregular ou distrofia grave (por exemplo, ceratocone ou distrofia de Fuchs avançada).
- Cirurgia prévia na córnea (LASIK, PRK, ceratotomia radial) ou dentro do olho.
- Ambliopia (“olho preguiçoso”).
- Alterações da pupila.
- Uveíte crônica grave ou outra doença ocular grave associada.
- Também: câmara anterior muito rasa, olho pequeno (microftalmia), catarata não relacionada à idade (por trauma ou congênita), hemorragia de coroide prévia, gestação e idade abaixo de 22 anos.
O que também pesamos na avaliação
Além da bula, a experiência clínica mostra que lentes de foco estendido e, sobretudo, difrativas tendem a satisfazer menos quem tem:
- Glaucoma com perda de campo visual, mesmo controlado (veja abaixo).
- Membrana epirretiniana, edema macular ou retinopatia diabética, mesmo leves.
- Olho seco importante não controlado — precisa ser tratado antes, porque altera o cálculo da lente e a qualidade da visão.
- Pseudoexfoliação ou fragilidade da zônula — essas lentes precisam ficar perfeitamente centradas.
- Muita direção noturna — motoristas profissionais que dirigem à noite costumam se adaptar melhor a monofocais ou monofocais plus.
- Expectativa de visão perfeita, sem nenhum efeito visual — quem não tolera halos tende a ficar mais satisfeito com uma monofocal ou uma monofocal plus.
Cuidados que valem para qualquer lente
A bula de todas as lentes TECNIS — inclusive a monofocal e a Eyhance — pede avaliação individual de risco e benefício em situações como: inflamação ocular grave e recorrente; doenças da retina que a lente possa dificultar de acompanhar ou tratar; cápsula ou zônula comprometidas; descolamento de retina prévio ou predisposição a ele; visão potencialmente boa em apenas um olho; glaucoma não controlado com medicação; distrofia do endotélio da córnea; e retinopatia diabética proliferativa. Nesses casos, muitas vezes, a lente monofocal é a escolha mais segura.
Tenho glaucoma. Qual lente posso usar?
Quem tem glaucoma precisa preservar o máximo de contraste, porque a doença já reduz a sensibilidade do olho. Por isso, em geral:
- Monofocal e monofocal plus (Eyhance) são as opções preferenciais, em qualquer estágio da doença.
- Foco estendido que não divide a luz (PureSee, Vivity) pode ser discutido em alguns casos.
- Lentes difrativas — trifocais como Odyssey, PanOptix e AT LISA tri, e também a AT LARA — são contraindicadas, por reduzirem a sensibilidade ao contraste.
Entenda por que glaucoma e catarata precisam ser planejados juntos e saiba mais no guia sobre glaucoma.
Uma alternativa: a monovisão
Com lentes monofocais ou monofocais plus, é possível ajustar um olho para longe e o outro levemente para perto ou intermediário. O cérebro combina as duas imagens e reduz a dependência dos óculos, sem os halos das lentes difrativas. Em troca, a percepção de profundidade pode ficar um pouco menor e nem todos se adaptam — por isso, a monovisão costuma ser testada antes com lente de contato, principalmente em quem nunca a usou.
Perguntas frequentes
A lente dura para sempre?
Sim. A lente intraocular não se desgasta nem perde o grau. O que pode acontecer, com o tempo, é a opacificação da cápsula atrás da lente (catarata secundária), tratada com laser no consultório.
Posso usar lentes diferentes em cada olho?
Em alguns casos, sim — combinar tipos de lente ou ajustar cada olho para uma distância. A estratégia é definida na consulta, conforme os exames e a rotina de cada pessoa.
Quanto tempo leva para me adaptar?
Com monofocal e monofocal plus, a adaptação é praticamente imediata. Com foco estendido, costuma ser curta. Com lentes difrativas como a Odyssey, o cérebro pode levar de semanas a alguns meses, e os halos tendem a incomodar menos com o tempo.
Vou ver halos à noite?
Qualquer cirurgia pode causar algum brilho ao redor de luzes no início. Com monofocal e Eyhance, isso é pouco comum. Com a PureSee, fica em nível baixo. Com a Odyssey, halos, raios e brilhos são mais frequentes — a bula orienta cautela ao dirigir à noite.
O convênio cobre a lente?
Em geral, os convênios cobrem a cirurgia com lente monofocal. As demais lentes costumam ter um valor adicional, informado no orçamento antes da cirurgia.
Já fiz cirurgia de miopia. Posso escolher qualquer lente?
Depende do tipo de cirurgia e do formato atual da córnea. O cálculo da lente fica mais difícil, e a bula das lentes PureSee e Odyssey lista a cirurgia refrativa prévia entre as situações que exigem avaliação cuidadosa.
A lente escolhida pode mudar no dia da cirurgia?
Pode. Se houver alguma intercorrência — como ruptura da cápsula que sustenta a lente —, o cirurgião pode precisar implantar outra lente, mais adequada àquela situação. Por isso, combinamos antes uma opção de reserva.
Vamos escolher a lente certa para você
A melhor lente depende dos seus exames, da saúde dos seus olhos e da sua rotina. Agende uma avaliação com o Dr. Pedro Ferrari em Campinas.
Agendar consultaReferências
- Simulador de visão TECNIS — Johnson & Johnson Vision Brasil (em português)
- Tratamento da catarata e opções de lente — Johnson & Johnson Vision Brasil (em português)
- TECNIS Eyhance — informações técnicas e de segurança — Johnson & Johnson (em inglês)
- TECNIS PureSee — resumo de segurança e eficácia — FDA, 2026 (em inglês)
- TECNIS Odyssey — informações técnicas e de segurança — Johnson & Johnson (em inglês)
- SMART Educator — guia visual das lentes — Alcon (em português)
- Clareon Vivity e Clareon PanOptix Pro — Alcon Brasil, para profissionais (em português)
- Linha AT LARA e linha AT LISA tri — Zeiss (em português)