Dr. Pedro Ferrari
Oftalmologia · Especialista em Glaucoma

Guia para pacientes

Glaucoma e Catarata

Duas doenças comuns na mesma fase da vida, que muitas vezes aparecem no mesmo olho. Uma interfere no diagnóstico e no tratamento da outra — por isso precisam ser pensadas em conjunto, em um único plano.

Conteúdo educativo elaborado pelo Dr. Pedro Ferrari, especialista em glaucoma. Não substitui consulta médica.

Por que pensar nas duas juntas

Tratar uma sem considerar a outra é perder oportunidades

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Aparecem juntas

As duas ficam mais frequentes com a idade. É comum que quem tem glaucoma desenvolva catarata — e muitas pessoas descobrem o glaucoma justamente na avaliação para operar a catarata.

02

Uma esconde a outra

A catarata embaça a visão e piora os exames que acompanham o glaucoma, como o campo visual e o OCT. Fica mais difícil saber se o glaucoma está estável ou progredindo.

03

Uma cirurgia pode ajudar a outra

Retirar a catarata pode baixar a pressão do olho — principalmente no glaucoma de ângulo fechado — e a cirurgia pode ser combinada com procedimentos para o glaucoma.

Quando o cristalino faz parte do glaucoma

O cristalino — a lente natural do olho, que fica opaca na catarata — aumenta de espessura com a idade. Em olhos mais curtos (comuns em quem tem hipermetropia), ele empurra a íris para a frente e estreita o ângulo por onde o líquido do olho é drenado. É o mecanismo do glaucoma de ângulo fechado.

Diagrama do olho com o ângulo de drenagem aberto

Ângulo aberto

O líquido do olho chega livremente à malha de drenagem, no ângulo entre a íris e a córnea.

Diagrama do olho com o ângulo de drenagem fechado

Ângulo fechado

A íris, empurrada pelo cristalino, bloqueia o ângulo e dificulta a drenagem — a pressão sobe.

Nesses casos, a cirurgia de catarata — ou até a troca do cristalino ainda transparente — abre o ângulo e costuma baixar a pressão de forma importante. Um grande estudo internacional (EAGLE, publicado na revista The Lancet em 2016), com pessoas acima de 50 anos com ângulo fechado e pressão elevada, mostrou que retirar o cristalino cedo deu melhores resultados do que começar o tratamento com laser. Por isso, no ângulo fechado, a cirurgia muitas vezes é indicada mais cedo — como parte do tratamento do glaucoma, e não só para melhorar a visão.

No glaucoma de ângulo aberto, o tipo mais comum, a cirurgia de catarata isolada pode reduzir um pouco a pressão, mas em geral não substitui o tratamento do glaucoma. Veja os tipos de glaucoma.

O que muda na cirurgia de catarata de quem tem glaucoma

A técnica é a mesma, mas o olho com glaucoma pede um planejamento mais cuidadoso antes, durante e depois da cirurgia.

Antes

  • Pressão controlada. Em glaucoma avançado, o plano inclui medidas para evitar picos de pressão no pós-operatório.
  • Superfície do olho saudável. Anos de colírios podem causar olho seco e irritação, que alteram o cálculo da lente. Às vezes é preciso tratar a superfície ou ajustar os colírios antes de operar.
  • Pseudoexfoliação. Comum em quem tem glaucoma, ela enfraquece as fibras que sustentam o cristalino e faz a pupila dilatar menos — o que exige técnica e materiais específicos.
  • Cirurgia de glaucoma prévia. Em quem já fez trabeculectomia ou implante de drenagem, a cirurgia de catarata pode interferir no funcionamento dessa via e precisa ser planejada e acompanhada de perto.
  • Exames de referência. Campo visual e OCT recentes ajudam a documentar como estava o glaucoma antes da cirurgia.

Depois

  • A pressão pode subir nos primeiros dias. Isso pesa mais em olhos com glaucoma avançado — por isso as revisões iniciais são mais próximas.
  • Colírios de corticoide, usados no pós-operatório, podem elevar a pressão em algumas pessoas. A pressão é acompanhada enquanto eles estiverem em uso.
  • Não suspenda os colírios de glaucoma por conta própria. O médico orienta quais manter, suspender ou trocar.
  • Novos exames de referência. Após a recuperação, campo visual e OCT são repetidos: a visão mais nítida muda os resultados, e esses passam a ser a nova base para acompanhar o glaucoma.
  • Menos colírios, às vezes. Se a pressão cair após a cirurgia, pode ser possível reduzir a medicação — uma decisão baseada nas medidas, não na expectativa.

Tratar o glaucoma junto com a catarata

Quando a pressão precisa baixar além do que os colírios conseguem, o tratamento do glaucoma pode ser planejado junto com o da catarata — antes dela ou na mesma cirurgia:

Laser SLT antes da cirurgia

A trabeculoplastia seletiva a laser (SLT) é feita no consultório, em poucos minutos, e melhora a drenagem natural do olho. Pode ser realizada antes da cirurgia de catarata para baixar a pressão e reduzir a necessidade de colírios. O efeito pode diminuir com os anos, e o laser pode ser repetido.

Facotrabeculectomia

Cirurgia de catarata associada à trabeculectomia, que cria uma nova via de drenagem. Reservada para pressões mais altas ou glaucoma mais avançado, quando é preciso chegar a uma pressão bem baixa.

Cirurgias em etapas

Em alguns casos, é melhor operar separadamente — primeiro o glaucoma e depois a catarata, ou o contrário —, conforme a urgência de cada doença.

A escolha depende do tipo e do estágio do glaucoma, da pressão que se quer atingir (a pressão-alvo), do número de colírios e da saúde do olho. Conheça também as opções de tratamento do glaucoma.

A escolha da lente no olho com glaucoma

A lente implantada na cirurgia fica no olho para a vida toda, e o glaucoma pode avançar com os anos. Por isso, a escolha considera o olho de hoje e o de daqui a 10 ou 20 anos. Em geral:

  • Monofocal e monofocal plus (como a TECNIS Eyhance) são as opções preferenciais, em qualquer estágio da doença, por preservarem melhor o contraste.
  • Lentes de foco estendido que não dividem a luz (como TECNIS PureSee e Alcon Vivity) podem ser discutidas em alguns casos.
  • Lentes difrativas (trifocais como Odyssey, PanOptix e AT LISA tri, e também a AT LARA) são contraindicadas, por reduzirem a sensibilidade ao contraste.
  • Astigmatismo pode ser corrigido com lentes tóricas, e a monovisão é uma alternativa para diminuir a dependência dos óculos sem lentes difrativas.
Guia completo
Qual lente escolher na cirurgia de catarata?

Monofocal, monofocal plus, foco estendido e trifocal: como cada uma funciona, exemplos de lentes, simuladores de visão, limitações e contraindicações.

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Perguntas frequentes

Operar a catarata cura o glaucoma?

Não. A cirurgia pode baixar a pressão — às vezes bastante, no ângulo fechado —, mas o dano que já existe no nervo óptico não se recupera, e o acompanhamento do glaucoma continua por toda a vida.

Vou poder parar os colírios depois da cirurgia?

Às vezes é possível reduzir, principalmente quando a cirurgia é combinada com um procedimento para glaucoma. A decisão depende das medidas de pressão após a recuperação. Nunca suspenda os colírios por conta própria.

Tenho glaucoma avançado. Posso operar a catarata?

Sim, mas exige cuidados extras já na indicação da cirurgia. Muitas vezes, opta-se pela cirurgia combinada, que trata a catarata e o glaucoma no mesmo ato. O acompanhamento nos primeiros dias também é mais próximo.

Preciso refazer os exames de glaucoma depois da cirurgia?

Sim. Depois da recuperação, o campo visual e o OCT são repetidos para servir de nova referência, já que a visão mais nítida muda os resultados.

Tem glaucoma e catarata?

Avalie as duas doenças em um único plano com o Dr. Pedro Ferrari, especialista em glaucoma em Campinas.

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Importante: este guia tem caráter exclusivamente educativo e não substitui a avaliação médica individualizada. Em caso de dúvidas, agende uma consulta com o Dr. Pedro Ferrari na Clínica SCOPO Saúde, em Cambuí.

Referências

  • Azuara-Blanco A, et al. Effectiveness of early lens extraction for the treatment of primary angle-closure glaucoma (EAGLE): a randomised controlled trial. The Lancet, 2016.
Créditos das ilustrações: diagramas do ângulo aberto e fechado cedidos por Servier Medical Art, licenciados sob Creative Commons Attribution 3.0.