Dr. Pedro Ferrari
Oftalmologia · Especialista em Glaucoma

Capítulo 02

Tipos de glaucoma

Existem várias formas de glaucoma — cada uma com mecanismo próprio, sintomas distintos e abordagem terapêutica específica.

Os dois principais grupos

A distinção fundamental é entre glaucoma de ângulo aberto e glaucoma de ângulo fechado. A diferença está em como o ângulo da câmara anterior — a região por onde o humor aquoso é drenado — se apresenta.

Diagrama do glaucoma de ângulo aberto

Ângulo aberto

O ângulo entre íris e córnea está anatomicamente aberto, mas a drenagem está desacelerada. Tipo mais comum, evolui de forma lenta e indolor.

Diagrama do glaucoma de ângulo fechado

Ângulo fechado

A íris bloqueia mecanicamente o ângulo, impedindo a drenagem. Pode ser agudo (emergência) ou crônico.

Glaucoma primário de ângulo aberto

É o tipo mais comum, responsável por cerca de 70% dos casos. Surge tipicamente após os 40 anos e progride de forma lenta, indolor e silenciosa.

Características

  • Ângulo iridocorneano aberto à gonioscopia
  • Pressão intraocular elevada na maioria dos casos (mas existe a variante de pressão normal)
  • Lesão característica do nervo óptico (escavação)
  • Perda do campo visual começa pela periferia
  • Bilateral, mas frequentemente assimétrico

Como suspeitar

Por ser silencioso, raramente o próprio paciente percebe. A suspeita surge em consulta oftalmológica de rotina, ao se identificar pressão intraocular elevada, escavação aumentada do nervo óptico ou alteração no campo visual.

Glaucoma de pressão normal

Forma especial em que o nervo óptico apresenta lesão típica de glaucoma mesmo com a pressão intraocular dentro do considerado normal (até 21 mmHg).

Pode envolver fatores vasculares (alterações de fluxo sanguíneo ao nervo óptico), maior susceptibilidade do nervo óptico a qualquer nível de pressão, ou fatores ainda em estudo. O tratamento, mesmo assim, costuma envolver redução da pressão.

Glaucoma de ângulo fechado

Ocorre quando a íris obstrui mecanicamente o ângulo de drenagem. Pode se apresentar de duas formas principais:

Agudo — emergência oftalmológica

Quadro súbito de obstrução completa do ângulo. Os sintomas são intensos e exigem atendimento imediato:

  • Dor ocular intensa, geralmente unilateral
  • Visão borrada ou embaçada
  • Halos coloridos ao redor de luzes (efeito do edema corneano)
  • Olho vermelho
  • Náuseas e vômitos
  • Pupila médio-dilatada e pouco reativa
Se você ou alguém próximo apresentar esses sintomas repentinamente, procure pronto-atendimento oftalmológico imediatamente. A demora pode levar a perda visual permanente.

Crônico

Forma mais sutil, em que o ângulo se fecha de maneira parcial e progressiva. Os sintomas podem ser ausentes ou apenas leves episódios de visão borrada e halos noturnos. O tratamento pode envolver iridotomia a laser preventiva.

Quem tem maior risco

  • Pessoas com câmara anterior anatomicamente rasa
  • Hipermetropia alta
  • Pessoas de origem asiática (incidência maior)
  • Idade mais avançada (cristalino fica mais espesso)
  • Sexo feminino (incidência um pouco maior)

Glaucoma congênito

Presente desde o nascimento ou que se manifesta nos primeiros anos de vida. Resulta de um desenvolvimento anormal do sistema de drenagem.

Sinais que devem chamar atenção dos pais:

  • Olhos visivelmente aumentados (buftalmia)
  • Lacrimejamento excessivo, frequente
  • Sensibilidade anormal à luz (fotofobia)
  • Córnea com aspecto opaco ou esbranquiçada
  • Bebê que aperta os olhos com frequência

O diagnóstico deve ser imediato e o tratamento geralmente é cirúrgico. Quanto mais cedo iniciar, maior a chance de preservar a visão.

Glaucoma juvenil

Forma de ângulo aberto que se manifesta geralmente entre os 10 e os 30 anos de idade. Frequentemente tem componente genético forte. A pressão intraocular costuma estar bastante elevada e o tratamento pode exigir cirurgia precoce.

Glaucomas secundários

Quando o glaucoma surge como consequência de outra condição. O tratamento envolve, sempre que possível, controlar a causa de base — além do controle da pressão.

Por trauma ocular

Pancadas, perfurações ou cirurgias prévias podem alterar a estrutura de drenagem do olho. Pode aparecer logo após o trauma ou anos depois.

Por uso de corticoides

O uso prolongado de corticoides — em colírios, comprimidos, injeções, pomadas, ou mesmo bombinhas para asma — pode aumentar a pressão intraocular em pessoas susceptíveis. Por isso é importante informar ao oftalmologista qualquer corticoide em uso.

Inflamatório (uveítico)

Inflamações intraoculares (uveítes) podem alterar a drenagem e causar elevação da pressão. Comum em doenças autoimunes.

Neovascular (associado a diabetes)

Em casos avançados de retinopatia diabética ou de oclusão venosa da retina, vasos anormais (neovasos) podem crescer no ângulo da câmara anterior e bloquear a drenagem. É uma forma agressiva de glaucoma.

Pseudoexfoliativo e pigmentar

Síndromes em que material proteico ou pigmento se acumula na malha trabecular e prejudica a drenagem. São formas relativamente comuns em adultos e idosos.

Tem dúvidas sobre seu caso?

Agende uma avaliação com o Dr. Pedro Ferrari, especialista em glaucoma em Campinas.

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Créditos das ilustrações: Imagens da anatomia ocular e do sistema de drenagem cortesia da World Glaucoma Association, utilizadas com autorização. Diagramas dos tipos de glaucoma cedidos por Servier Medical Art, licenciados sob Creative Commons Attribution 3.0. Demais ilustrações e diagramas SVG são originais deste site.